24
jun
11

Cisne Negro (Black Swan) –


Vaslav Nijinsky, considerado o “Deus” da dança, foi diagnosticado esquizofrênico aos 29 anos e lidou
com tal situação até sua morte.
Nina, a personagem de Natalie Portman na mais recente produção de Darren Aronofsky, é uma jovem bailarina que recebe a oportunidade de interpretar Odette, a princesa e Odile, a transformação em cisne negro da peça o “Lago dos Cisnes”. E é na representação do cisne negro que mora o problema de Nina. Como se houvesse um bloqueio, a frágil bailarina, apesar de sua apurada técnica, não consegue alcançar o nível necessário de entrega para tal.
E assim como o pai da dança moderna, Nina começa a enxergar uma realidade que só é viva aos
seus olhos. Enxerga a rivalidade onde não existe, como no caso da companheira de palco interpretada por Mila Kunis.
Através das cicatrizes e seqüelas das horas de esforço físico em busca da perfeição, imagens aterradoras se formam do seu corpo. É a carne sendo ferida e se transformando. A metamorfose de Nina segue de forma proporcional a pressão fora do comum em que ela mesmo se coloca. Seja pela auto-afirmação profissional, seja pela busca interrupta da perfeição. Dentro dessa espiral de tensão, deve-se adicionar ainda um coreógrafo provocador, onde impulsos de perversão e submissão afloram e uma mãe controladora e cheia de frustrações, presa num passado que pode ser amenizado com o sucesso da filha.
Apesar do amadorismo aflorar em algumas seqüencias da produção, o resultado final proporciona uma coleção de imagens belíssimas ao som de Tchaikovsky. A desconstrução de Nina resulta nesse aborto, nesse parto extremamente doloroso que no final pode ser totalmente ignorado diante da beleza imensurável da criatura faminta que abre as suas asas diante do público em êxtase. Para Nina, todo sacrifício deve ser aceito quando a arte alcança sua plenitude. E o mesmo deve ser feito com essa película. A beleza alcançada no seu ato principal supera e apaga outras imperfeições percebidas.

Black Swan (2010 / EUA / 108 min)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vicent Cassel

Avaliação: 3 (Bom)

06
jun
11

A Promessa (The Pledge)


Jerry Black é um policial pronto para sua aposentadoria. Sozinho, depois de dois casamentos fracassados, ele encontrou em seu trabalho uma forma de preencher sua vida.
Jerry observa pela janela uma idosa andando na rua com bastante dificuldade.
Ele demonstra não estar pronto para aquilo como sabe que não há como impedir o que está por vir.
Um crime hediondo ocorre em paralelo à despedida de Jerry.
Na cena do crime, o personagem de Nicholson parece tentar dialogar com a criança morta. Seu corpo inerte como num túmulo de neve parece se vestir de uma piada de péssimo gosto para Jerry. Nada faz sentido para o policial aposentado e tudo parece estar fora do lugar. Inclusive o jovem e destemido policial que deve ocupar seu lugar no departamento, interpretado por Aaron Eckhart.
Após a promessa feita aos pais da criança, que encontraria o responsável, e o suicídio do único suspeito, Jerry começa a entrar numa espiral obsessiva.
Nada daquilo basta. É o tipo de situação que não pode ser apagada ao entrar num avião para sua merecida aposentadoria. A promessa foi feita e Jerry nos lembra disso em cada gesto, cada expressão cada vez que percebe o quanto está preso naquele caso, que apenas para ele, ainda deve ser resolvido.
É como se todos quisessem olhar para tudo menos o que Jack está tentando mostrar. Como em pesadelos em que tentamos nos comunicar sem sucesso em situações extremas. O chefe de departamento prefere olhar para o estado deplorável das mãos de Jerry ao invés de tentar compreender sua fala. Situação comum em se tratando de um profissional aposentado. Sua condição agora já não é mais confiável para os demais, pois se trata de alguém com idade avançada demais, logo, desprovido de condições para ser ouvido.
Jerry, apesar disso, tenta dialogar, enxergar o detalhe que falta no caso através até mesmo dos desenhos feitos pela vítima. O gigante que ela desenhava, é mesmo o seu alvo ou não passa de uma necessidade de respostas ?
E a obsessão em que se envolve só aumenta, principalmente no momento em que conhece a mãe frágil e desprotegida de uma criança com as mesmas características da vítima que Jerry precisa entregar ao anjo que ela acreditava existir.
Penn entrega nessa produção sua melhor realização, além do ótimo trabalho de Nicholson e todo o resto do elenco, extremamente afinados. A promessa não só flerta com extrema competência com diversos subgêneros do suspense como também se coloca como uma obra de rara sensibilidade sobre a pobre e infeliz condição em que o homem pode se colocar quando não só quer salvar, mas também ser salvo.

The Pledge (EUA / 2001)
Direção: Sean Penn
Roteiro: Jerzy Kromolowski
Mary Olson-Kromolowski
Elenco: Jack Nicholson, Aaron Eckhart, Robin Wright Penn, Benicio Del Toro, Helen Mirren, Sam Shepard, Vanessa Redgrave, Mickey Rourke.

Avaliação:  4 (Muito Bom)

08
maio
11

A Rainha Margot (La Reine Margot) – noites de sangue

Não há uma cena sequer em Rainha Margot que esteja completamente limpa. A sujeira estética ou moral permanece tão impactante quantos os personagens dessa adaptação da obra de Alexandre Dumas, dirigida com coragem por Patrice Chereau. E nesse contexto, o sangue é um desses personagens. Seja como o elemento de união familiar, ou se esvaindo dos corpos de pobres miseráveis nas ruas ou nobres desorientados em complexas tramas de poder.
Da caótica e grotesca noite de São Bartolomeu (massacre de protestantes pelas mãos de católicos ocorrido no ano de 1572 em Paris), até as conseqüências nefastas das tramas preparadas por Catarina de Médicis (Virna Lisi, impecável), o sangue salta aos nossos olhos com rara beleza e uma dose acachapante de realismo.
A tensão esmagadora é muito bem construída, ora através de Henrique de Navarra ( o sempre competente Daniel Auteuil), que agora tem que tentar sobreviver num ninho de predadores católicos, ou na total insegurança e dor representada de forma magistral por Jean-Hugues Anglade como um Carlos IX sufocado pela presença da mãe controladora (Médicis) e pelas sádicas intenções de seus irmãos.
Margot é a aquela que transita entre esses dois opostos. Adjani não empresta aqui apenas sua beleza, mas talvez, a melhor atuação de sua carreira. Da relação com um soldado protestante até sua relação familiar completamente infeliz, ela é a testemunha atuante dos complexos eventos ocorridos não só dentro de sua família mas também no que ocorreu como conseqüência da disputa entre católicos e protestantes naqueles dias tão confusos. E na sua expressão de angústia e provocação, está a perfeita representação do que se passava ao seu redor.
Já o sangue, impregnado em suas vestes, grita e domina completamente os retratos duros e belíssimos que Chereau conseguiu dar vida. Católicos ou Protestantes, nobres ou plebeus, todas as suas escolhas deixaram marcas, como as enormes manchas no vestido de Margot.

La Reine Margot ( 1994 / França, Itália, Alemanha / 168 – 138 min)
Direção: Patrice Chereau
Roteiro: Patrice Chereau e Daniele Thompson
Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteuil, Jean-Hugues Anglade, Virna Lisi

Avaliação: 4 (Muito Bom)

25
abr
11

Cópia Fiel (Copie Conforme) – A retirada da autonomia divina

É como se cada frame de Cópia Fiel  gritasse através do silêncio muito bem posto, que nossa realidade, nossa referência de mundo, é delimitada por um tipo de fuga do divino. Tudo é cópia, fiel ou não, do que desejamos que se estabeleça como a nossa verdade.

Já na visita claustrofóbica que James (Shimell), escritor britânico de passagem pela Itália para divulgação do seu livro “Cópia Fiel”, faz para Elle (Binoche), o mesmo parece sufocado pelas obras que dividem a cena. Nota-se aqui a sutileza do diretor  Abbas, na utilização freqüente dos reflexos de outros personagens ou mesmo obras em contraponto a James, mantendo o mesmo sempre oprimido por essas imagens. Nos deparamos com a busca de James pelo real, pelo palpável, sem carga de valores ou razões para existir.  Durante o passeio com Elle, o escritor não esconde sua aversão as leituras simplificadas do valor de uma obra, seja ela cópia ou não.

Elle, por sua vez, transpira o peso da realidade. Seu rosto belíssimo é ao mesmo tempo marcado pelo tempo que gostaria de ter vivido de outra forma. James, no momento em que aceita a “brincadeira” com a realidade, está abraçando, talvez, uma forma de alcançar uma experiência significativa em meio a tantas versões do ideal, da suposta felicidade. Essa metalinguagem na obra, funciona como uma catarse. Imersos em personagens, James e Elle constroem e desconstroem a cada olhar o que acreditam ser o ideal, um modelo para o real que tanto sonham. Para James, o real desprovido de modelos limitadores e para Elle, aquele modelo do ideal que fora perdido no tempo. A cópia fiel é montada e destruída a cada gesto. Como se a cada tentativa de tocar o divino, a realidade imaginada, criada, os chamassem, e já não sabendo em que papel estavam, deixassem seus impulsos já automatizados pelas obrigações, conduzirem o momento a seguir. James, se vê então, hipnotizado por uma versão fiel do que seria sua realidade ideal. Elle, afogada no “antigo” real, busca com todas as forças alguns segundos em qualquer versão possível de uma realidade mais agradável.

Mas James e Elle poderiam aceitar essa versão fiel do real? Seria ela tão boa como a original?

Esse exercício questionador é conduzido de forma magistral por Kiarostami  em cada detalhe em cena.

Seja na história contada por James, que sem uma intenção prévia, faz Elle enxergar seus próprios problemas numa descrição de uma relação problemática entre mãe e filho. Ou na sequência em que James divide a cena com noivas preparando-se para registrar em fotos sua celebração. Duas versões, uma da idéia de mãe imperfeita e outra da mulher vestida de noiva, ou seja, preparada para um momento de transição, definidor. Dois opostos, mas dois modelos bem delimitados para James. O primeiro dá o choque que puxa Elle para a realidade que tanto quer fugir e o segundo é o que atormenta James. Os valores representados num modelo sem razão alguma em existir de tal forma. Em total penitência. Opressor e limitado. A expressão da segunda noiva que aparece em cena, representa essa idéia perfeitamente. Como uma pintura de uma giovinetta incompleta, ela surge como essa idealização da felicidade, que por si só não deixa de ser uma cópia fiel da solidão.

Elle ao fazer o convite no hotel para James, representa esse ato de fuga da penitência irracional da sua realidade. Não  importa mais que se trate de uma cópia. O original perdeu seu valor desde o momento em que Elle, ou nós mesmos,  nos vimos mergulhados na dor que o real pode representar.

Copie Conforme  (2010/ França, Itália, Bélgica /106min)
Direção e Roteiro: Abbas Kiarostami
Elenco: Juliette Binoche, William Shimell

Avaliação: 5 (Obra-Prima)